Interpretação de Exames Laboratoriais na Atenção BásicaSemana da Enfermagem 2026 · FIMCA
✦ SEMANA DA ENFERMAGEM 2026
Interpretação de
Exames Laboratoriais
na Atenção Básica
Do laboratório para a clínica: o raciocínio que transforma resultados em cuidado
Michelle Juliana Vieira Gomes
Centro Universitário Aparício Carvalho — FIMCA
Semana da Enfermagem 2026 · Minicurso 4 horas
Condutas e Prescrições de Enfermagem
Michelle Juliana Vieira GomesFIMCA · Semana da Enfermagem 2026
Bloco 1
Hemograma Completo
O que é o Hemograma?
🔴 Série Vermelha
Hemácias, Hb, Ht, VCM, HCM, CHCM, RDW
⚪ Série Branca
Leucócitos + diferencial: neutrófilos, linfócitos, eosinófilos, monócitos, basófilos
🟡 Plaquetas
Contagem absoluta — Ref: 150.000–400.000/mm³
Série Vermelha: Valores de Referência
| Parâmetro | Mulher | Homem |
| Hemácias | 3,9–5,0 milhões/mm³ | 4,5–5,5 milhões/mm³ |
| Hemoglobina (Hb) | 12–16 g/dL | 13,5–17,5 g/dL |
| Hematócrito (Ht) | 35–47% | 41–53% |
| VCM | 80–100 fL |
| HCM | 27–33 pg |
| CHCM | 32–36 g/dL |
| RDW | 11,5–14,5% |
Gestantes: Hb ≥ 11 g/dL é o limite para classificar anemia segundo o Ministério da Saúde.
VCM, HCM e Tipos de Anemia
| VCM | Tipo de Anemia | Causas frequentes na AB |
| <80 fL (microcítica) | Ferropriva, talassemia | Defic. de ferro, sangramento crônico |
| 80–100 fL (normocítica) | Doença crônica, hemolítica, aplásica | IRC, hipotireoidismo |
| >100 fL (macrocítica) | Megaloblástica | Defic. B12, ácido fólico, alcoolismo |
LEVE
Hb 10–11,9 g/dL (M)
10–12,9 g/dL (H)
Leucograma e Plaquetas
| Célula | Referência | % | Função |
| Leucócitos totais | 4.000–11.000/mm³ | — | — |
| Neutrófilos | 1.800–7.700/mm³ | 45–70% | Defesa bacteriana |
| Linfócitos | 1.000–4.800/mm³ | 20–40% | Defesa viral |
| Monócitos | 200–900/mm³ | 4–8% | Fagocitose crônica |
| Eosinófilos | 100–400/mm³ | 1–4% | Parasitoses, alergias |
| Basófilos | 0–100/mm³ | 0–1% | Reações alérgicas |
Leucocitose
- Com neutrofilia: infecção bacteriana, sepse · Desvio à esquerda = grave
- Com linfocitose: infecção viral
- Com eosinofilia >500: parasitose, alergia
- Leucócitos >30.000: reação leucemoide → URGÊNCIA
Plaquetas — Trombograma
- Normal: 150.000–400.000/mm³
- Trombocitopenia moderada (50–100k): médico de família
- Trombocitopenia grave (<50.000): URGÊNCIA
- Dengue: causa sazonal mais comum → hidratação + monitoramento
Bloco 2
Glicemia e Perfil Glicêmico
Exames de Glicemia: Visão Geral
🍭 Glicemia de Jejum
Triagem e diagnóstico inicial. Jejum ≥ 8h. Processamento em até 30 min.
🩺 HbA1c
Monitoramento e diagnóstico. Média glicêmica dos últimos 2–3 meses. Não exige jejum.
🥤 TOTG 75g
Diagnóstico confirmatório e rastreio de DMG. Coleta em jejum e 2h após ingestão.
Importante: Um único valor de glicemia ≥ 126 mg/dL sem sintomas NÃO confirma o diagnóstico — deve ser repetido ou confirmado com HbA1c ou TOTG.
Coleta inadequada invalida o resultado: estresse agudo, uso de corticóide, doença aguda febril e IAM podem elevar transitoriamente a glicemia — não diagnosticar DM nesses contextos.
Glicemia de Jejum: Valores e Interpretação
| Resultado | Classificação | Conduta na AB |
| < 100 mg/dL | Normal | Manter rastreio conforme risco |
| 100–125 mg/dL | Pré-diabetes — glicemia de jejum alterada | Intervenção no estilo de vida + repetir em 3–6 meses |
| ≥ 126 mg/dL em 2 ocasiões | Diabetes Mellitus | Diagnóstico confirmado → iniciar manejo |
| ≥ 200 mg/dL + sintomas clássicos | Diabetes Mellitus | Diagnóstico em dose única — não precisa repetir |
Sintomas clássicos de DM: Poliúria · Polidipsia · Polifagia · Perda de peso inexplicada
Hemoglobina Glicada (HbA1c): Interpretação
Reflete a média glicêmica dos últimos 2 a 3 meses. Mede o percentual de hemoglobina ligada à glicose. Não exige jejum.
| Resultado | Classificação | Conduta |
| < 5,7% | Normal | Manter rastreio conforme risco |
| 5,7–6,4% | Pré-diabetes | Intervenção no estilo de vida · reavaliar em 6–12 meses |
| ≥ 6,5% | Diabetes Mellitus | Diagnóstico confirmado (1 exame se sintomático) |
| < 7% | Meta terapêutica geral | Alvo para a maioria dos adultos com DM2 |
| < 7,5–8% | Meta individualizada | Idosos, múltiplas comorbidades, hipoglicemia frequente |
✅ Vantagens da HbA1c
- Não exige jejum — maior adesão à coleta
- Não afetada por estresse agudo ou doença intercorrente
- Reflete controle médio, não um momento isolado
⚠️ Limitações — a HbA1c pode MENTIR
- Falsamente baixa: anemia hemolítica, talassemia, anemia falciforme, gestação
- Falsamente alta: deficiência de ferro/B12, DRC, esplenectomia
- Nessas situações: usar glicemia de jejum ou TOTG
TOTG (Teste Oral de Tolerância à Glicose) e Diabetes Gestacional
Protocolo: 75g de glicose diluída em 300mL de água após jejum de 8–12h. Coleta em jejum (T0) e após 2 horas (T120).
Diagnóstico Geral — Glicemia 2h após TOTG
| Resultado 2h | Classificação |
| < 140 mg/dL | Normal |
| 140–199 mg/dL | Intolerância à glicose (pré-diabetes) |
| ≥ 200 mg/dL | Diabetes Mellitus |
🤰 Diabetes Gestacional — Critérios MS/IADPSG
| Momento | Glicemia DMG |
| Jejum (T0) | ≥ 92 mg/dL |
| 1h após (T60) | ≥ 180 mg/dL |
| 2h após (T120) | ≥ 153 mg/dL |
Qualquer um dos valores acima confirma DMG → encaminhar pré-natal de alto risco
Glicemia Capilar (POC) e Metas de Controle
Medida com glicosímetro. Rápida, disponível na UBS. Usada para monitoramento e triagem — não substitui exame venoso para diagnóstico.
| Momento | Alvo geral (adulto DM2) | Alvo idosos / comorbidades |
| Jejum / pré-prandial | 80–130 mg/dL | 90–150 mg/dL |
| 2h pós-prandial | < 180 mg/dL | < 200 mg/dL |
| Ao deitar | 100–140 mg/dL | 120–160 mg/dL |
⚠️ Hipoglicemia
- < 70 mg/dL: sintomas (sudorese, tremor, taquicardia, confusão)
- < 54 mg/dL: hipoglicemia grave → glicose IV ou glucagon
- Registrar e investigar causa (dose excessiva, jejum, erro de horário)
🔴 Hiperglicemia Grave
- > 300 mg/dL: checar cetonúria, sinais de cetoacidose
- Cetonúria + hiperglicemia + vômitos → URGÊNCIA
- Encaminhar UPA / hospital
Condutas de Enfermagem: Glicemia e DM na AB
✅ Prescrição de Enfermagem (protocolo)
- Glicemia capilar e orientação de automonitorização
- Orientação nutricional e de atividade física
- Cuidados com os pés (curativos, prevenção)
- Insulina humana NPH e Regular (protocolo MS para APS)
- Metformina em programas de prevenção (protocolo local)
Consulta de Enfermagem — DM2
- Verificar adesão medicamentosa: horário, técnica de insulina, conservação
- Avaliar diário glicêmico
- Exame dos pés: pulsos, monofilamento 10g, inspeção de lesões
- Solicitar anualmente: HbA1c, creatinina, microalbuminúria, lipidograma, fundo de olho
⚠️ Encaminhar ao Médico de Família
- HbA1c > 9% sem resposta após 3 meses de ajuste
- Hipoglicemia frequente ou grave
- Complicações: neuropatia, nefropatia, retinopatia, pé diabético
🔴 Encaminhar à Rede Especializada
- DM1 (insulinodependente) → endocrinologia
- DMG → pré-natal de alto risco
- Pé diabético com necrose/osteomielite → cirurgia vascular
Bloco 3
Lipidograma — Perfil Lipídico
Lipidograma: O que é e o que Avalia
| Parâmetro | O que mede |
| Colesterol Total (CT) | Soma de todas as frações de colesterol no sangue |
| LDL ("mau colesterol") | Colesterol carregado para as artérias — se deposita nas placas ateroscleróticas |
| HDL ("bom colesterol") | Colesterol carregado de volta ao fígado — ação protetora vascular |
| VLDL | Fração calculada, relacionada aos triglicerídeos |
| Triglicerídeos (TG) | Gorduras derivadas da dieta e produzidas pelo fígado |
| não-HDL | CT − HDL: melhor marcador de risco que o LDL isolado |
Coleta: Jejum de 12 horas — especialmente para os triglicerídeos. O MS ainda recomenda jejum para o lipidograma completo na AB.
Lipidograma: Valores de Referência e Metas
| Parâmetro | Desejável | Limítrofe | Alto / Muito alto |
| Colesterol Total | < 190 mg/dL | 190–239 mg/dL | ≥ 240 mg/dL |
| LDL | < 130 mg/dL* | 130–159 mg/dL | ≥ 160 · Muito alto ≥ 190 |
| HDL | > 60 mg/dL (protetor) | 40–60 mg/dL | < 40 mg/dL (H) / < 50 mg/dL (M) |
| Triglicerídeos | < 150 mg/dL | 150–199 mg/dL | Alto 200–499 · Muito alto ≥ 500 |
| não-HDL | < 160 mg/dL | 160–189 mg/dL | ≥ 190 mg/dL |
Metas de LDL por Risco Cardiovascular (Diretriz SBC 2020)
RISCO MUITO ALTO
< 50
mg/dL (IAM/AVC)
LDL vs HDL: Entendendo a Diferença
LDL — "Mau Colesterol"
- Transporta colesterol do fígado para as artérias
- Em excesso forma placas ateroscleróticas → IAM, AVC
- Quanto menor, melhor para quem tem risco cardiovascular
- Calculado pela fórmula de Friedewald: LDL = CT − HDL − (TG/5)
- ⚠️ Fórmula inválida se TG > 400 mg/dL → solicitar LDL direto
HDL — "Bom Colesterol"
- Transporta colesterol de volta ao fígado (transporte reverso)
- Quanto maior, melhor — ação protetora cardiovascular
- HDL < 40 mg/dL (H) / < 50 mg/dL (M) = fator de risco independente
- Atividade física regular é a principal estratégia para elevá-lo
⚠️ Triglicerídeos ≥ 500 mg/dL = risco de pancreatite aguda → URGÊNCIA — encaminhar imediatamente. Independente de outros fatores, é uma emergência metabólica.
Lipidograma: Causas das Alterações
Hipercolesterolemia — LDL ou CT Elevados
| Causa | Exemplos |
| Genética (HF) | Hipercolesterolemia familiar — LDL > 190 mg/dL sem causa secundária |
| Dietética | Gorduras saturadas (carnes gordas, queijos, manteiga) e trans (ultraprocessados) |
| Doenças | Hipotireoidismo (muito comum!), síndrome nefrótica, colestase, DM |
| Medicamentos | Corticóides, progestinas, betabloqueadores, diuréticos tiazídicos |
Hipertrigliceridemia
| Causa | Exemplos |
| Dietética | Açúcar, carboidratos refinados, álcool (grande elevador de TG) |
| Doenças | DM2 descompensado, hipotireoidismo, DRC |
| Medicamentos | Corticóides, diuréticos, betabloqueadores, estrogênios orais |
Antes de tratar dislipidemia: sempre descartar causa secundária. Hipotireoidismo é a causa secundária mais comum e reversível — solicitar TSH se LDL muito elevado ou resistente ao tratamento.
Condutas de Enfermagem: Lipidograma na AB
✅ Intervenção no Estilo de Vida — primeira linha para TODOS
- Alimentação: reduzir gorduras saturadas (<7% do VCT), eliminar trans, aumentar fibras solúveis (aveia, feijão), omega-3 (peixes 2×/sem)
- Atividade física: ≥150 min/semana de intensidade moderada — eleva HDL e reduz TG
- Controle de peso: redução ≥5% melhora o perfil lipídico
- Suspender tabagismo · Reduzir álcool (causa principal de hipertrigliceridemia grave)
Monitoramento de Estatinas pelo Enfermeiro
- Investigar mialgia (efeito adverso mais comum)
- Solicitar CK se mialgia importante → risco de rabdomiólise
- Solicitar TGO/TGP após 3 meses (hepatotoxicidade rara)
- Orientar tomada à noite (maior produção de colesterol durante o sono)
⚠️ Encaminhar ao Médico de Família
- LDL ≥ 160 mg/dL sem resposta após 3 meses → avaliar estatina
- TG ≥ 200 mg/dL persistentes → avaliar fibratos
- Suspeita de hipercolesterolemia familiar (LDL > 190)
🔴 Encaminhar à Rede Especializada
- TG ≥ 500 mg/dL → URGÊNCIA — risco de pancreatite
- Hipercolesterolemia familiar confirmada → endocrinologia/cardiologia
- LDL fora da meta mesmo com estatina → cardiologia
Bloco 4
Urinálise: EAS em 3 Compartimentos
EAS: O que é e os 3 Compartimentos
👁️ Exame Físico
O que os olhos veem: cor, aspecto, odor, volume, densidade
🧪 Exame Químico
O que a fita reativa detecta: pH, proteína, glicose, nitrito, leucócitos…
🔬 Microscopia
O que o microscópio revela: células, cilindros, cristais, bactérias
Coleta adequada: Jato médio · Higiene prévia · Primeira urina da manhã · Analisar em até 2h. Coleta inadequada = principal causa de resultado falso-alterado.
EAS — Exame Físico (Características Físicas)
| Parâmetro | Normal | Alterado | O que pode indicar |
| Cor | Amarelo-palha | Incolor | Poliúria, diabetes insipidus, diuréticos |
| Amarelo intenso/laranja | Desidratação, rifampicina, bilirrubinúria |
| Avermelhada/rosada | Hematúria, hemoglobinúria |
| Marrom escura (coca-cola) | Hemoglobinúria, mioglobinúria (rabdomiólise) |
| Aspecto | Límpido | Turvo/leitoso | Piúria, bacteriúria, cristais |
| Espumoso persistente | Proteinúria significativa — sinal de alerta! |
| Odor | Sui generis | Fétido, amoniacal | Infecção bacteriana |
| Adocicado/frutado | Cetonúria — cetoacidose diabética |
| Densidade | 1.010–1.025 | <1.010 (hipostenúria) | Urina diluída: DI, DRC avançada |
| >1.025 (hiperstenúria) | Desidratação, DM descompensado |
| Fixa em 1.010 (isostenúria) | DRC grave — rim perdeu capacidade de concentrar |
EAS — Exame Químico (Fita Reativa)
| Parâmetro | Normal | Alterado → Significado |
| pH | 4,5–8,0 | <4,5: acidose, E. coli · >8,0: bactérias urease+ (Proteus, Klebsiella), vômitos |
| Proteínas | Ausente/traços | 1+ a 4+: DRC, glomerulonefrite, pré-eclâmpsia · Traços: exercício, febre (benigno) |
| Glicose | Ausente | DM (limiar renal ~180 mg/dL) · Glicosúria renal sem hiperglicemia = benigna |
| Cetonas | Ausente | Cetoacidose diabética, jejum, vômitos da gestação |
| Bilirrubina | Ausente | Icterícia obstrutiva, hepatite viral, cirrose |
| Urobilinogênio | Traços | Aumentado: hepatite, cirrose, hemólise · Ausente: obstrução biliar total |
| Nitrito | Negativo | Positivo: gram-negativos (E. coli, Klebsiella, Proteus) → forte sugestão ITU ⚠️ Gram-positivos NÃO produzem nitrito! |
| Esterase leucocitária | Negativo | Positivo: piúria — confirmar na microscopia |
| Hemoglobina | Negativo | Hematúria OU hemoglobinúria — confirmar na microscopia |
Vitamina C em altas doses → falso-negativo para glicose, bilirrubina e hemoglobina. A fita orienta — a microscopia confirma.
EAS — Microscopia / Sedimentoscopia
🔴 Células
| Elemento | Normal | Alterado → Significado |
| Leucócitos / Piócitos | <5/CGA | 5–10: limítrofe · >10 (piúria): ITU, IST piúria estéril, TB urinária, nefrolitíase |
| Hemácias | <2–3/CGA | Microhematúria >3 · ITU, litíase, trauma, neoplasia, esquistossomose |
| Hemácias dismórficas | Ausentes | Origem glomerular → lesão glomerular → encaminhar nefrologia com urgência |
🟡 Cilindros
| Cilindro | Significado | Conduta |
| Hialino | Exercício, desidratação — inespecífico | Sem ação se isolado |
| Granuloso | Lesão tubular, glomerulonefrite | Encaminhar médico de família |
| Hemático | Glomerulonefrite aguda — alarme máximo | URGÊNCIA — nefrologia |
| Leucocitário | Pielonefrite | Encaminhar — infecção renal alta |
| Ceroso/largo | DRC avançada | Nefrologia urgente |
🔵 Cristais
| Cristal | Forma | Significado |
| Oxalato de cálcio | Envelope/octaédrico | Nefrolitíase cálcica — mais comum |
| Ácido úrico | Rômbico/losangular | Hiperuricemia, gota |
| Estruvita | "Tampa de caixão" | ITU por bactérias urease+ → cálculos infectados |
EAS: Leitura Integrada dos 3 Compartimentos
Caso 1 — ITU bacteriana
Físico: turvo, odor fétido · Químico: nitrito+, leucócitos+, pH alcalino · Microscopia: piócitos 25/CGA, bacteriúria++
→ ITU bacteriana gram-negativa. Conduzir na AB.
Caso 2 — Pré-eclâmpsia
Físico: espumoso · Químico: proteínas 3+, sem nitrito · Microscopia: cilindros hialinos, sem piócitos
→ Proteinúria em gestante hipertensa. URGÊNCIA.
Caso 3 — Hematúria suspeita
Físico: levemente avermelhado · Químico: hemoglobina+, sem nitrito · Microscopia: 30 hemácias/CGA dismórficas
→ Origem glomerular/neoplásica. Encaminhar urgente.
Caso 4 — Piúria estéril
Físico: levemente turvo · Químico: leucócitos+, nitrito NEGATIVO · Microscopia: piócitos 18/CGA, sem bactérias
→ Piúria estéril. Investigar IST ou TB urinária.
EAS: Conduta Integrada por Alteração
| Alteração no EAS | Pensar em | Conduta |
| Piúria + nitrito+ | ITU bacteriana | ✅ AB Prescrever antibiótico |
| Piúria + nitrito negativo | IST, TB urinária, coleta inadequada | Investigar IST, urocultura |
| Hematúria indolor, adulto >40a tabagista | Neoplasia de bexiga | 🔴 Urgente Urologia |
| Hemácias dismórficas | Glomerulonefrite | 🔴 Urgente Nefrologia |
| Cilindros hemáticos | Glomerulonefrite aguda | 🔴 URGÊNCIA Nefrologia |
| Proteinúria 1+ persistente | DRC inicial | Microalbuminúria + função renal |
| Proteinúria 2–3+ em gestante | Pré-eclâmpsia | 🔴 URGÊNCIA Maternidade |
| Cetonas+ | Cetoacidose diabética | 🔴 URGÊNCIA UPA/hospital |
| Cilindros cerosos | DRC avançada | 🔴 Urgente Nefrologia |
Urocultura, BAC e Fluxo ITU na AB
Urocultura
- Padrão-ouro para ITU · ≥100.000 UFC/mL = bacteriúria significativa
- Solicitar em: gestantes, ITU recorrente, pielonefrite suspeita, falha terapêutica
- Bacteriúria assintomática: tratar APENAS em gestantes e pré-operatório
✅ Conduzir na AB — ITU não complicada
- Mulher não grávida, <65 anos, sem comorbidades
- Nitrofurantoína 100 mg 6/6h × 5–7 dias
- OU Fosfomicina 3g dose única
Encaminhar ao médico: Homem com ITU · Crianças · Pielonefrite suspeita (febre + dor lombar) · Gestante · ITU recorrente (>3/ano)
Bloco 5
Parasitológico de Fezes
Comensais NÃO se tratam!
Erro clássico: tratar todo protozoário encontrado no PPF. Isso está ERRADO.
Comensais — NÃO tratar
- Entamoeba coli
- Endolimax nana
- Iodamoeba bütschlii
- Entamoeba hartmanni
- Blastocystis hominis (tratar só se sintomático)
⚠️ Somente E. histolytica é patogênica
Se o laudo reportar "Entamoeba sp." sem especificar histolytica → avaliar quadro clínico antes de tratar. Para comensais: apenas educação em saúde.
Tratamento: Ascaris lumbricoides — 4 opções da OMS
| Medicamento | Dose Adulto | Dose Criança | Observação |
| Albendazol | 400 mg dose única | 400 mg (>2a) / 200 mg (1–2a) | 1ª escolha no SUS |
| Mebendazol | 100 mg 12/12h × 3d OU 500 mg DU | Mesmo (>2a) | Muito disponível |
| Levamisol | 150 mg dose única | 2,5 mg/kg DU | Paralisa musculatura do verme |
| Pamoato de Pirantel | 11 mg/kg (máx.1g) DU | Mesmo | Seguro na gestação |
Infecções mistas: tratar Ascaris PRIMEIRO — risco de migração ectópica para vias biliares, apêndice ou pulmão
Tratamento: Outros Helmintos e Protozoários
| Parasita / Agente | 1ª Escolha | Observação |
| Trichuris trichiura | Mebendazol 100 mg 12/12h × 3d | Albendazol menos eficaz para Trichuris |
| Ancilostomídeos | Albendazol 400 mg DU | Checar anemia associada! |
| Enterobius (Oxiúro) | Albendazol 400 mg DU | Repetir após 2 sem · Tratar TODA a família! |
| Strongyloides | Ivermectina 200 mcg/kg/dia × 2d | Atenção em imunossuprimidos — hiperinfecção fatal! |
| Taenia solium/saginata | Praziquantel 5–10 mg/kg DU | NOTIFICAÇÃO COMPULSÓRIA (T. solium = risco neurocisticercose) |
| Giardia lamblia | Metronidazol 250mg 8/8h × 5–7d OU Tinidazol 2g DU | Metronidazol contraindicado no 1º trimestre |
| E. histolytica invasiva | Metronidazol 500–750mg 8/8h × 10d | + luminal após |
Bloco 6
PCCU, Bacterioscopia e ISTs
PCCU: Classificação dos Resultados e Condutas
⚠️ ATUALIZAÇÃO — Agosto de 2025: O MS incorporou o teste molecular de DNA-HPV oncogênico como exame de rastreio primário no SUS. Quando negativo → intervalo de 5 anos. HPV 16 ou 18 detectado → colposcopia direta.
| Resultado | Conduta |
| Negativo | Manter rastreio de rotina |
| ASC-US | Repetir citologia em 6 meses OU colposcopia |
| AGC (glandulares atípicas) | Colposcopia imediata → encaminhar |
| LSIL / NIC I | Repetir PCCU em 6 meses |
| HSIL / NIC II–III | Colposcopia urgente → ginecologista |
| Carcinoma | Encaminhamento imediato → oncologia |
ISTs: Trichomonas e Vaginose Bacteriana
Trichomonas vaginalis
- IST por protozoário flagelado — corrimento espumoso, odor fétido
- Metronidazol 2g VO dose única (paciente + parceiro)
- ⚠️ Contraindicado no 1º trimestre
Vaginose Bacteriana (Gardnerella)
- Desequilíbrio da flora — NÃO é IST · Clue cells · Nugent 7–10
- Metronidazol 500 mg 12/12h × 7 dias
- Gestantes: tratar · Parceiro: NÃO tratar de rotina
Bacterioscopia vs. PCCU
| PCCU (Papanicolaou) | Bacterioscopia (Gram vaginal) |
| Objetivo | Rastrear câncer cervical | Avaliar flora vaginal e agentes infecciosos |
| Detecta | Alterações celulares, lesões | Bactérias, clue cells, fungos, Trichomonas |
| Quando solicitar | Rastreio oncológico | Corrimento vaginal, suspeita de vaginose, IST |
Na prática: bacterioscopia = exame do corrimento · PCCU = rastreio do câncer. O enfermeiro coleta, interpreta e conduz ambos na AB.
Bloco 7
Sorologias — VDRL com Titulações
Sorologias: Quais Solicitar e Quando
| Sorologia | Indicação na AB |
| HIV (Ag/Ac) | Pré-natal, IST, populações vulneráveis — teste rápido disponível |
| VDRL / RPR | Pré-natal (1º e 3º trimestre), suspeita de sífilis, IST |
| FTA-Abs / TPHA | Confirmatório para sífilis |
| HBsAg / Anti-HBs / Anti-HBc | Pré-natal, hepatite B, verificar vacinação |
| Anti-HCV | Rastreio >40 anos, drogas IV, transfusões |
| IgG/IgM Toxoplasma | Pré-natal — obrigatório |
| IgG/IgM Rubéola | Pré-natal — verificar imunidade |
| Dengue NS1 + IgM/IgG | Suspeita dengue — NS1 nos primeiros 5 dias |
VDRL: Qualitativo vs. Quantitativo
1. VDRL Qualitativo
Amostra analisada pura (não diluída). Resultado: Reagente ou Não Reagente. Para toda amostra reagente, o laboratório DEVE fazer o quantitativo (titulação).
2. VDRL Quantitativo — a Titulação
A mesma amostra é diluída em série: 1:2 → 1:4 → 1:8 → 1:16 → 1:32… O resultado é a última diluição onde ainda há reação = o título. Quanto maior o número, mais anticorpo no sangue.
Analogia: Imagine espremer café em água. 1:2 = muito escuro (muito anticorpo). 1:32 = quase transparente. O número mostra a intensidade da resposta imune.
Titulações do VDRL: 1:2 a 1:32+
| Título | Como se lê | O que sugere na prática |
| 1:2 | Diluiu 2× e ainda reagiu | Título baixo — sífilis tratada, cicatriz sorológica ou janela imunológica precoce |
| 1:4 | Diluiu 4× e ainda reagiu | Título baixo a moderado — investigar histórico de tratamento |
| 1:8 | Diluiu 8× e ainda reagiu | Título moderado — atividade sorológica relevante, suspeita de infecção ativa |
| 1:16 | Diluiu 16× e ainda reagiu | Título alto — sugere infecção ativa sem tratamento adequado |
| 1:32 ou mais | Diluiu 32× ou mais | Título muito alto — fortemente sugestivo de sífilis ativa não tratada |
Regra prática: Títulos ≥ 1:8 são fortemente sugestivos de infecção ativa. Títulos baixos (1:2 ou 1:4) exigem contextualização clínica + confirmação com FTA-Abs.
Falso-positivo possível: LES, artrite reumatoide, hepatites, tuberculose, hanseníase, malária, gravidez.
VDRL: Monitoramento do Tratamento pelas Titulações
| Parâmetro | Critério | Significado |
| ✅ Queda de 2 diluições | Ex: 1:32 → 1:8 (em 3–6 meses) | Resposta adequada ao tratamento |
| ✅ Negativação do VDRL | Título indetectável | Cura sorológica (pode demorar 1–2 anos) |
| ⚠️ Sem queda de 2 diluições | Título estável ou subindo após 6 meses | Falha terapêutica ou reinfecção → retratamento |
| 🔴 Alta de 2 diluições | Ex: 1:4 → 1:16 após tratamento | Reinfecção ou recidiva → tratar novamente |
Monitoramento (PCDT IST 2022): VDRL com 3, 6, 9 e 12 meses após o tratamento · PVHIV: até 24 meses · Gestante: mensal até o parto
FTA-Abs NÃO é usado para monitorar — permanece positivo para sempre mesmo após cura.
VDRL × FTA-Abs e Condutas do Enfermeiro
| VDRL | FTA-Abs | Interpretação | Conduta |
| Reagente | Reagente | Sífilis ativa ou tratada — verificar título | Se não tratado ou título subindo: tratar |
| Não reagente | Reagente | Cicatriz sorológica — sífilis tratada | Confirmar tratamento completo |
| Reagente | Não reagente | Falso positivo do VDRL | Investigar LES, autoimune, hepatite, TB, gravidez |
| Não reagente | Não reagente | Ausência de infecção | Repetir se suspeita forte e exame recente |
O enfermeiro prescreve na AB: Notificar no SINAN · Penicilina G benzatina (sífilis recente: 2.400.000 UI DU · sífilis tardia: 2.400.000 UI × 3 semanas) · Tratar parceiro · Solicitar HIV + hepatites · VDRL de controle mensal (gestante) ou trimestral
HIV e Hepatites na AB
HIV — Fluxo de Testagem
- Teste rápido 1 reagente → Teste rápido 2 → Se ambos reagentes: POSITIVO
- Encaminhar para SAE ou infectologista
- CD4 e Carga Viral: solicitados pelo médico especializado
Hepatites B e C
- HBsAg (+) = infectado / doença ativa
- Anti-HBs (+) = imune (vacinado ou curado)
- HBsAg (+) por >6 meses = hepatite B crônica → hepatologia
- Anti-HCV (+) → confirmar com HCV-RNA → se positivo: hepatite C ativa → hepatologia
Bloco 8
Condutas, Prescrições e Encaminhamentos
Prescrição de Enfermagem e Fluxo de Encaminhamento
Base Legal
- Lei 7.498/86 — Exercício da Enfermagem
- Resolução COFEN 195/1997 — Prescrição em programas de saúde pública
- Resolução COFEN 625/2020 — Atualização de competências
- Protocolo de Enfermagem na AB (COFEN/CONASS 2016)
O Enfermeiro Pode Prescrever na AB
- ✅ Sulfato ferroso, ácido fólico
- ✅ Insulina NPH e Regular (protocolo MS)
- ✅ Antiparasitários (protocolo)
- ✅ Antibióticos para ITU não complicada
- ✅ Penicilina G benzatina (sífilis + protocolo)
- ✅ Metronidazol (vaginose, tricomonas)
Fluxo de Encaminhamento: Quem vai para onde?
| Situação | Destino |
| ITU não complicada em mulher · Vaginose · Sífilis recente (protocolo) | ✅ Conduzir na AB |
| Anemia ferropriva leve · Pré-diabetes · Dislipidemia leve (estilo de vida) | ✅ Conduzir na AB |
| Hb <10 g/dL · DM descompensado (HbA1c >9%) · LDL ≥160 sem resposta | 🔵 Médico de Família |
| PCCU com HSIL / AGC · HIV reagente · Hepatite C ativa | 🟣 Rede Especializada |
| DMG confirmada · DM1 · Hipercolesterolemia familiar | 🟣 Rede Especializada |
| TG ≥ 500 mg/dL · Plaquetas <50.000 + sangramento · Leucócitos >30.000 | 🔴 UPA — URGÊNCIA |
| Glicemia capilar <54 mg/dL ou cetoacidose · Carcinoma no PCCU | 🔴 UPA — URGÊNCIA |
Atividade Prática
Casos Clínicos em Grupo
Caso 01
Caso Clínico 1
Gestante, 24 anos, 1ª consulta pré-natal, 10 semanas. Mora com marido e 2 filhos.
| Hb / VCM / Ferritina | 9,8 g/dL · 68 fL · 5 ng/mL |
| VDRL qualitativo / título | Reagente · 1:4 |
| FTA-Abs | Reagente |
| Glicemia de jejum | 98 mg/dL |
| Toxoplasmose IgG/IgM | Ambos negativos |
| EAS | Físico: espumoso · Químico: proteínas 1+, sem nitrito · Microscopia: sem piócitos, sem hemácias |
Quais são os problemas? O que o VDRL 1:4 + FTA-Abs reagente indica? Qual o estadiamento e o esquema de penicilina? O EAS com proteínas 1+ preocupa? O que o enfermeiro conduz e o que encaminha?
Caso 02
Caso Clínico 2
Homem, 52 anos, hipertenso em tratamento, diabético há 5 anos, tabagista 20 maços/ano
| HbA1c | 8,4% |
| Glicemia de jejum | 178 mg/dL |
| Colesterol Total / LDL / HDL | 242 mg/dL · 168 mg/dL · 38 mg/dL |
| Triglicerídeos | 248 mg/dL |
| Creatinina / Microalbuminúria | 1,3 mg/dL · positiva |
| EAS | Físico: espumoso · Químico: proteínas 2+, glicosúria+ · Microscopia: piócitos 3/CGA, sem cilindros |
Qual o risco cardiovascular desse paciente? O LDL de 168 está dentro da meta? A HbA1c de 8,4% é aceitável? O que o enfermeiro conduz? O que encaminha? A proteinúria 2+ em diabético preocupa?
Caso 03
Caso Clínico 3
Mulher, 38 anos, assintomática, rastreio de rotina na UBS
| PCCU | Flora compatível com Gardnerella · células escamosas sem atipias |
| Bacterioscopia | Clue cells presentes · Nugent: 8 |
| VDRL qualitativo | Reagente · Título: 1:2 · FTA-Abs: Reagente |
| Glicemia de jejum | 108 mg/dL |
| Colesterol Total / LDL | 195 mg/dL · 138 mg/dL |
| EAS | Normal nos 3 compartimentos |
O VDRL 1:2 + FTA-Abs reagente confirma sífilis ativa? O que fazer? A glicemia de 108 é pré-diabetes — como conduzir? LDL 138 requer estatina? O enfermeiro trata a vaginose?
Caso 04
Caso Clínico 4
Criança, 7 anos, dor abdominal, emagrecimento e prurido anal. Mora sem saneamento básico.
| PPF (3 amostras) | Ascaris lumbricoides + Giardia lamblia (cistos) |
| Hemograma | Hb 10,5 g/dL · Eosinófilos 800/mm³ |
| Glicemia capilar | 88 mg/dL |
| EAS | Físico: límpido · Microscopia: piócitos 3/CGA, sem bactérias, cristais de oxalato |
Infecção mista: qual tratar primeiro e por quê? Toda a família trata? O EAS descarta ITU? O que os cristais de oxalato indicam? O enfermeiro prescreve?
Caso 05
Caso Clínico 5
Homem, 55 anos, hipertenso, tabagista há 30 anos — assintomático, check-up de rotina
| EAS | Físico: levemente avermelhado · Químico: hemoglobina+, nitrito negativo · Microscopia: hemácias 30/CGA dismórficas, piócitos 2/CGA, sem cilindros |
| Colesterol Total / LDL / HDL | 228 mg/dL · 158 mg/dL · 37 mg/dL |
| Triglicerídeos | 165 mg/dL |
| VDRL qualitativo | Não reagente |
Hematúria indolor com hemácias dismórficas em tabagista de 55 anos — o que isso levanta? O HDL 37 é um fator de risco independente? Qual o risco CV desse paciente? Para onde encaminha?
Pontos de Ouro para Levar para Casa
- O resultado de exame sem clínica não faz diagnóstico
- Um único valor de glicemia ≥126 mg/dL sem sintomas não confirma DM — repetir!
- HbA1c pode mentir: anemia hemolítica, talassemia e gestação dão resultado falsamente baixo
- A meta de LDL não é única — ela depende do risco cardiovascular global do paciente
- TG ≥ 500 mg/dL = risco de pancreatite aguda → URGÊNCIA — encaminhar imediatamente
- EAS tem 3 compartimentos — leia os três juntos antes de concluir
- Piúria sem bacteriúria ≠ ITU — investigar IST, TB urinária ou coleta inadequada
- Cilindros hemáticos no EAS = glomerulonefrite aguda → nefrologia com urgência
- VDRL qualitativo diz "reagente ou não" · quantitativo diz "quanto" · FTA-Abs confirma
- Queda de 2 diluições no VDRL (1:32 → 1:8) = resposta ao tratamento da sífilis
- PCCU ≠ exame para corrimento — use a bacterioscopia para isso
- Hipotireoidismo é a causa secundária mais comum de dislipidemia — solicitar TSH!
"O enfermeiro que interpreta exames com raciocínio clínico não apenas lê resultados — ele decide o cuidado."
Michelle Juliana Vieira Gomes
Centro Universitário Aparício Carvalho — FIMCA
Semana da Enfermagem 2026