Interpretação de Exames Laboratoriais na Atenção BásicaSemana da Enfermagem 2026 · FIMCA
✦ SEMANA DA ENFERMAGEM 2026

Interpretação de
Exames Laboratoriais
na Atenção Básica

Do laboratório para a clínica: o raciocínio que transforma resultados em cuidado

Michelle Juliana Vieira Gomes
Centro Universitário Aparício Carvalho — FIMCA
Semana da Enfermagem 2026 · Minicurso 4 horas
Condutas e Prescrições de Enfermagem
Michelle
Michelle Juliana Vieira GomesFIMCA · Semana da Enfermagem 2026
Bloco 1
Hemograma Completo

O que é o Hemograma?

🔴 Série Vermelha

Hemácias, Hb, Ht, VCM, HCM, CHCM, RDW

⚪ Série Branca

Leucócitos + diferencial: neutrófilos, linfócitos, eosinófilos, monócitos, basófilos

🟡 Plaquetas

Contagem absoluta — Ref: 150.000–400.000/mm³

Série Vermelha: Valores de Referência

ParâmetroMulherHomem
Hemácias3,9–5,0 milhões/mm³4,5–5,5 milhões/mm³
Hemoglobina (Hb)12–16 g/dL13,5–17,5 g/dL
Hematócrito (Ht)35–47%41–53%
VCM80–100 fL
HCM27–33 pg
CHCM32–36 g/dL
RDW11,5–14,5%
Gestantes: Hb ≥ 11 g/dL é o limite para classificar anemia segundo o Ministério da Saúde.

VCM, HCM e Tipos de Anemia

VCMTipo de AnemiaCausas frequentes na AB
<80 fL (microcítica)Ferropriva, talassemiaDefic. de ferro, sangramento crônico
80–100 fL (normocítica)Doença crônica, hemolítica, aplásicaIRC, hipotireoidismo
>100 fL (macrocítica)MegaloblásticaDefic. B12, ácido fólico, alcoolismo
LEVE
Hb 10–11,9 g/dL (M)
10–12,9 g/dL (H)
MODERADA
Hb 7–9,9 g/dL
GRAVE
Hb <7 g/dL

Leucograma e Plaquetas

CélulaReferência%Função
Leucócitos totais4.000–11.000/mm³
Neutrófilos1.800–7.700/mm³45–70%Defesa bacteriana
Linfócitos1.000–4.800/mm³20–40%Defesa viral
Monócitos200–900/mm³4–8%Fagocitose crônica
Eosinófilos100–400/mm³1–4%Parasitoses, alergias
Basófilos0–100/mm³0–1%Reações alérgicas
Leucocitose
  • Com neutrofilia: infecção bacteriana, sepse · Desvio à esquerda = grave
  • Com linfocitose: infecção viral
  • Com eosinofilia >500: parasitose, alergia
  • Leucócitos >30.000: reação leucemoide → URGÊNCIA
Plaquetas — Trombograma
  • Normal: 150.000–400.000/mm³
  • Trombocitopenia moderada (50–100k): médico de família
  • Trombocitopenia grave (<50.000): URGÊNCIA
  • Dengue: causa sazonal mais comum → hidratação + monitoramento
Bloco 2
Glicemia e Perfil Glicêmico

Exames de Glicemia: Visão Geral

🍭 Glicemia de Jejum
Triagem e diagnóstico inicial. Jejum ≥ 8h. Processamento em até 30 min.
🩺 HbA1c
Monitoramento e diagnóstico. Média glicêmica dos últimos 2–3 meses. Não exige jejum.
🥤 TOTG 75g
Diagnóstico confirmatório e rastreio de DMG. Coleta em jejum e 2h após ingestão.
Importante: Um único valor de glicemia ≥ 126 mg/dL sem sintomas NÃO confirma o diagnóstico — deve ser repetido ou confirmado com HbA1c ou TOTG.
Coleta inadequada invalida o resultado: estresse agudo, uso de corticóide, doença aguda febril e IAM podem elevar transitoriamente a glicemia — não diagnosticar DM nesses contextos.

Glicemia de Jejum: Valores e Interpretação

ResultadoClassificaçãoConduta na AB
< 100 mg/dLNormalManter rastreio conforme risco
100–125 mg/dLPré-diabetes — glicemia de jejum alteradaIntervenção no estilo de vida + repetir em 3–6 meses
≥ 126 mg/dL em 2 ocasiõesDiabetes MellitusDiagnóstico confirmado → iniciar manejo
≥ 200 mg/dL + sintomas clássicosDiabetes MellitusDiagnóstico em dose única — não precisa repetir
Sintomas clássicos de DM: Poliúria · Polidipsia · Polifagia · Perda de peso inexplicada

Hemoglobina Glicada (HbA1c): Interpretação

Reflete a média glicêmica dos últimos 2 a 3 meses. Mede o percentual de hemoglobina ligada à glicose. Não exige jejum.

ResultadoClassificaçãoConduta
< 5,7%NormalManter rastreio conforme risco
5,7–6,4%Pré-diabetesIntervenção no estilo de vida · reavaliar em 6–12 meses
≥ 6,5%Diabetes MellitusDiagnóstico confirmado (1 exame se sintomático)
< 7%Meta terapêutica geralAlvo para a maioria dos adultos com DM2
< 7,5–8%Meta individualizadaIdosos, múltiplas comorbidades, hipoglicemia frequente
✅ Vantagens da HbA1c
  • Não exige jejum — maior adesão à coleta
  • Não afetada por estresse agudo ou doença intercorrente
  • Reflete controle médio, não um momento isolado
⚠️ Limitações — a HbA1c pode MENTIR
  • Falsamente baixa: anemia hemolítica, talassemia, anemia falciforme, gestação
  • Falsamente alta: deficiência de ferro/B12, DRC, esplenectomia
  • Nessas situações: usar glicemia de jejum ou TOTG

TOTG (Teste Oral de Tolerância à Glicose) e Diabetes Gestacional

Protocolo: 75g de glicose diluída em 300mL de água após jejum de 8–12h. Coleta em jejum (T0) e após 2 horas (T120).

Diagnóstico Geral — Glicemia 2h após TOTG
Resultado 2hClassificação
< 140 mg/dLNormal
140–199 mg/dLIntolerância à glicose (pré-diabetes)
≥ 200 mg/dLDiabetes Mellitus
🤰 Diabetes Gestacional — Critérios MS/IADPSG
MomentoGlicemia DMG
Jejum (T0)≥ 92 mg/dL
1h após (T60)≥ 180 mg/dL
2h após (T120)≥ 153 mg/dL

Qualquer um dos valores acima confirma DMG → encaminhar pré-natal de alto risco

Glicemia Capilar (POC) e Metas de Controle

Medida com glicosímetro. Rápida, disponível na UBS. Usada para monitoramento e triagem — não substitui exame venoso para diagnóstico.

MomentoAlvo geral (adulto DM2)Alvo idosos / comorbidades
Jejum / pré-prandial80–130 mg/dL90–150 mg/dL
2h pós-prandial< 180 mg/dL< 200 mg/dL
Ao deitar100–140 mg/dL120–160 mg/dL
⚠️ Hipoglicemia
  • < 70 mg/dL: sintomas (sudorese, tremor, taquicardia, confusão)
  • < 54 mg/dL: hipoglicemia grave → glicose IV ou glucagon
  • Registrar e investigar causa (dose excessiva, jejum, erro de horário)
🔴 Hiperglicemia Grave
  • > 300 mg/dL: checar cetonúria, sinais de cetoacidose
  • Cetonúria + hiperglicemia + vômitos → URGÊNCIA
  • Encaminhar UPA / hospital

Condutas de Enfermagem: Glicemia e DM na AB

✅ Prescrição de Enfermagem (protocolo)
  • Glicemia capilar e orientação de automonitorização
  • Orientação nutricional e de atividade física
  • Cuidados com os pés (curativos, prevenção)
  • Insulina humana NPH e Regular (protocolo MS para APS)
  • Metformina em programas de prevenção (protocolo local)
Consulta de Enfermagem — DM2
  • Verificar adesão medicamentosa: horário, técnica de insulina, conservação
  • Avaliar diário glicêmico
  • Exame dos pés: pulsos, monofilamento 10g, inspeção de lesões
  • Solicitar anualmente: HbA1c, creatinina, microalbuminúria, lipidograma, fundo de olho
⚠️ Encaminhar ao Médico de Família
  • HbA1c > 9% sem resposta após 3 meses de ajuste
  • Hipoglicemia frequente ou grave
  • Complicações: neuropatia, nefropatia, retinopatia, pé diabético
🔴 Encaminhar à Rede Especializada
  • DM1 (insulinodependente) → endocrinologia
  • DMG → pré-natal de alto risco
  • Pé diabético com necrose/osteomielite → cirurgia vascular
Bloco 3
Lipidograma — Perfil Lipídico

Lipidograma: O que é e o que Avalia

ParâmetroO que mede
Colesterol Total (CT)Soma de todas as frações de colesterol no sangue
LDL ("mau colesterol")Colesterol carregado para as artérias — se deposita nas placas ateroscleróticas
HDL ("bom colesterol")Colesterol carregado de volta ao fígado — ação protetora vascular
VLDLFração calculada, relacionada aos triglicerídeos
Triglicerídeos (TG)Gorduras derivadas da dieta e produzidas pelo fígado
não-HDLCT − HDL: melhor marcador de risco que o LDL isolado
Coleta: Jejum de 12 horas — especialmente para os triglicerídeos. O MS ainda recomenda jejum para o lipidograma completo na AB.

Lipidograma: Valores de Referência e Metas

ParâmetroDesejávelLimítrofeAlto / Muito alto
Colesterol Total< 190 mg/dL190–239 mg/dL≥ 240 mg/dL
LDL< 130 mg/dL*130–159 mg/dL≥ 160 · Muito alto ≥ 190
HDL> 60 mg/dL (protetor)40–60 mg/dL< 40 mg/dL (H) / < 50 mg/dL (M)
Triglicerídeos< 150 mg/dL150–199 mg/dLAlto 200–499 · Muito alto ≥ 500
não-HDL< 160 mg/dL160–189 mg/dL≥ 190 mg/dL
Metas de LDL por Risco Cardiovascular (Diretriz SBC 2020)
RISCO BAIXO
< 130
mg/dL
RISCO INTER.
< 100
mg/dL
RISCO ALTO
< 70
mg/dL
RISCO MUITO ALTO
< 50
mg/dL (IAM/AVC)

LDL vs HDL: Entendendo a Diferença

LDL — "Mau Colesterol"
  • Transporta colesterol do fígado para as artérias
  • Em excesso forma placas ateroscleróticas → IAM, AVC
  • Quanto menor, melhor para quem tem risco cardiovascular
  • Calculado pela fórmula de Friedewald: LDL = CT − HDL − (TG/5)
  • ⚠️ Fórmula inválida se TG > 400 mg/dL → solicitar LDL direto
HDL — "Bom Colesterol"
  • Transporta colesterol de volta ao fígado (transporte reverso)
  • Quanto maior, melhor — ação protetora cardiovascular
  • HDL < 40 mg/dL (H) / < 50 mg/dL (M) = fator de risco independente
  • Atividade física regular é a principal estratégia para elevá-lo
⚠️ Triglicerídeos ≥ 500 mg/dL = risco de pancreatite aguda → URGÊNCIA — encaminhar imediatamente. Independente de outros fatores, é uma emergência metabólica.

Lipidograma: Causas das Alterações

Hipercolesterolemia — LDL ou CT Elevados
CausaExemplos
Genética (HF)Hipercolesterolemia familiar — LDL > 190 mg/dL sem causa secundária
DietéticaGorduras saturadas (carnes gordas, queijos, manteiga) e trans (ultraprocessados)
DoençasHipotireoidismo (muito comum!), síndrome nefrótica, colestase, DM
MedicamentosCorticóides, progestinas, betabloqueadores, diuréticos tiazídicos
Hipertrigliceridemia
CausaExemplos
DietéticaAçúcar, carboidratos refinados, álcool (grande elevador de TG)
DoençasDM2 descompensado, hipotireoidismo, DRC
MedicamentosCorticóides, diuréticos, betabloqueadores, estrogênios orais
Antes de tratar dislipidemia: sempre descartar causa secundária. Hipotireoidismo é a causa secundária mais comum e reversível — solicitar TSH se LDL muito elevado ou resistente ao tratamento.

Condutas de Enfermagem: Lipidograma na AB

✅ Intervenção no Estilo de Vida — primeira linha para TODOS
  • Alimentação: reduzir gorduras saturadas (<7% do VCT), eliminar trans, aumentar fibras solúveis (aveia, feijão), omega-3 (peixes 2×/sem)
  • Atividade física: ≥150 min/semana de intensidade moderada — eleva HDL e reduz TG
  • Controle de peso: redução ≥5% melhora o perfil lipídico
  • Suspender tabagismo · Reduzir álcool (causa principal de hipertrigliceridemia grave)
Monitoramento de Estatinas pelo Enfermeiro
  • Investigar mialgia (efeito adverso mais comum)
  • Solicitar CK se mialgia importante → risco de rabdomiólise
  • Solicitar TGO/TGP após 3 meses (hepatotoxicidade rara)
  • Orientar tomada à noite (maior produção de colesterol durante o sono)
⚠️ Encaminhar ao Médico de Família
  • LDL ≥ 160 mg/dL sem resposta após 3 meses → avaliar estatina
  • TG ≥ 200 mg/dL persistentes → avaliar fibratos
  • Suspeita de hipercolesterolemia familiar (LDL > 190)
🔴 Encaminhar à Rede Especializada
  • TG ≥ 500 mg/dL → URGÊNCIA — risco de pancreatite
  • Hipercolesterolemia familiar confirmada → endocrinologia/cardiologia
  • LDL fora da meta mesmo com estatina → cardiologia
Bloco 4
Urinálise: EAS em 3 Compartimentos

EAS: O que é e os 3 Compartimentos

👁️ Exame Físico
O que os olhos veem: cor, aspecto, odor, volume, densidade
🧪 Exame Químico
O que a fita reativa detecta: pH, proteína, glicose, nitrito, leucócitos…
🔬 Microscopia
O que o microscópio revela: células, cilindros, cristais, bactérias
Coleta adequada: Jato médio · Higiene prévia · Primeira urina da manhã · Analisar em até 2h. Coleta inadequada = principal causa de resultado falso-alterado.

EAS — Exame Físico (Características Físicas)

ParâmetroNormalAlteradoO que pode indicar
CorAmarelo-palhaIncolorPoliúria, diabetes insipidus, diuréticos
Amarelo intenso/laranjaDesidratação, rifampicina, bilirrubinúria
Avermelhada/rosadaHematúria, hemoglobinúria
Marrom escura (coca-cola)Hemoglobinúria, mioglobinúria (rabdomiólise)
AspectoLímpidoTurvo/leitosoPiúria, bacteriúria, cristais
Espumoso persistenteProteinúria significativa — sinal de alerta!
OdorSui generisFétido, amoniacalInfecção bacteriana
Adocicado/frutadoCetonúria — cetoacidose diabética
Densidade1.010–1.025<1.010 (hipostenúria)Urina diluída: DI, DRC avançada
>1.025 (hiperstenúria)Desidratação, DM descompensado
Fixa em 1.010 (isostenúria)DRC grave — rim perdeu capacidade de concentrar

EAS — Exame Químico (Fita Reativa)

ParâmetroNormalAlterado → Significado
pH4,5–8,0<4,5: acidose, E. coli · >8,0: bactérias urease+ (Proteus, Klebsiella), vômitos
ProteínasAusente/traços1+ a 4+: DRC, glomerulonefrite, pré-eclâmpsia · Traços: exercício, febre (benigno)
GlicoseAusenteDM (limiar renal ~180 mg/dL) · Glicosúria renal sem hiperglicemia = benigna
CetonasAusenteCetoacidose diabética, jejum, vômitos da gestação
BilirrubinaAusenteIcterícia obstrutiva, hepatite viral, cirrose
UrobilinogênioTraçosAumentado: hepatite, cirrose, hemólise · Ausente: obstrução biliar total
NitritoNegativoPositivo: gram-negativos (E. coli, Klebsiella, Proteus) → forte sugestão ITU
⚠️ Gram-positivos NÃO produzem nitrito!
Esterase leucocitáriaNegativoPositivo: piúria — confirmar na microscopia
HemoglobinaNegativoHematúria OU hemoglobinúria — confirmar na microscopia
Vitamina C em altas doses → falso-negativo para glicose, bilirrubina e hemoglobina. A fita orienta — a microscopia confirma.

EAS — Microscopia / Sedimentoscopia

🔴 Células
ElementoNormalAlterado → Significado
Leucócitos / Piócitos<5/CGA5–10: limítrofe · >10 (piúria): ITU, IST piúria estéril, TB urinária, nefrolitíase
Hemácias<2–3/CGAMicrohematúria >3 · ITU, litíase, trauma, neoplasia, esquistossomose
Hemácias dismórficasAusentesOrigem glomerular → lesão glomerular → encaminhar nefrologia com urgência
🟡 Cilindros
CilindroSignificadoConduta
HialinoExercício, desidratação — inespecíficoSem ação se isolado
GranulosoLesão tubular, glomerulonefriteEncaminhar médico de família
HemáticoGlomerulonefrite aguda — alarme máximoURGÊNCIA — nefrologia
LeucocitárioPielonefriteEncaminhar — infecção renal alta
Ceroso/largoDRC avançadaNefrologia urgente
🔵 Cristais
CristalFormaSignificado
Oxalato de cálcioEnvelope/octaédricoNefrolitíase cálcica — mais comum
Ácido úricoRômbico/losangularHiperuricemia, gota
Estruvita"Tampa de caixão"ITU por bactérias urease+ → cálculos infectados

EAS: Leitura Integrada dos 3 Compartimentos

Caso 1 — ITU bacteriana

Físico: turvo, odor fétido · Químico: nitrito+, leucócitos+, pH alcalino · Microscopia: piócitos 25/CGA, bacteriúria++
→ ITU bacteriana gram-negativa. Conduzir na AB.

Caso 2 — Pré-eclâmpsia

Físico: espumoso · Químico: proteínas 3+, sem nitrito · Microscopia: cilindros hialinos, sem piócitos
→ Proteinúria em gestante hipertensa. URGÊNCIA.

Caso 3 — Hematúria suspeita

Físico: levemente avermelhado · Químico: hemoglobina+, sem nitrito · Microscopia: 30 hemácias/CGA dismórficas
→ Origem glomerular/neoplásica. Encaminhar urgente.

Caso 4 — Piúria estéril

Físico: levemente turvo · Químico: leucócitos+, nitrito NEGATIVO · Microscopia: piócitos 18/CGA, sem bactérias
→ Piúria estéril. Investigar IST ou TB urinária.

EAS: Conduta Integrada por Alteração

Alteração no EASPensar emConduta
Piúria + nitrito+ITU bacteriana✅ AB Prescrever antibiótico
Piúria + nitrito negativoIST, TB urinária, coleta inadequadaInvestigar IST, urocultura
Hematúria indolor, adulto >40a tabagistaNeoplasia de bexiga🔴 Urgente Urologia
Hemácias dismórficasGlomerulonefrite🔴 Urgente Nefrologia
Cilindros hemáticosGlomerulonefrite aguda🔴 URGÊNCIA Nefrologia
Proteinúria 1+ persistenteDRC inicialMicroalbuminúria + função renal
Proteinúria 2–3+ em gestantePré-eclâmpsia🔴 URGÊNCIA Maternidade
Cetonas+Cetoacidose diabética🔴 URGÊNCIA UPA/hospital
Cilindros cerososDRC avançada🔴 Urgente Nefrologia

Urocultura, BAC e Fluxo ITU na AB

Urocultura
  • Padrão-ouro para ITU · ≥100.000 UFC/mL = bacteriúria significativa
  • Solicitar em: gestantes, ITU recorrente, pielonefrite suspeita, falha terapêutica
  • Bacteriúria assintomática: tratar APENAS em gestantes e pré-operatório
✅ Conduzir na AB — ITU não complicada
  • Mulher não grávida, <65 anos, sem comorbidades
  • Nitrofurantoína 100 mg 6/6h × 5–7 dias
  • OU Fosfomicina 3g dose única
Encaminhar ao médico: Homem com ITU · Crianças · Pielonefrite suspeita (febre + dor lombar) · Gestante · ITU recorrente (>3/ano)
Bloco 5
Parasitológico de Fezes

Comensais NÃO se tratam!

Erro clássico: tratar todo protozoário encontrado no PPF. Isso está ERRADO.
Comensais — NÃO tratar
  • Entamoeba coli
  • Endolimax nana
  • Iodamoeba bütschlii
  • Entamoeba hartmanni
  • Blastocystis hominis (tratar só se sintomático)
⚠️ Somente E. histolytica é patogênica

Se o laudo reportar "Entamoeba sp." sem especificar histolytica → avaliar quadro clínico antes de tratar. Para comensais: apenas educação em saúde.

Tratamento: Ascaris lumbricoides — 4 opções da OMS

MedicamentoDose AdultoDose CriançaObservação
Albendazol400 mg dose única400 mg (>2a) / 200 mg (1–2a)1ª escolha no SUS
Mebendazol100 mg 12/12h × 3d OU 500 mg DUMesmo (>2a)Muito disponível
Levamisol150 mg dose única2,5 mg/kg DUParalisa musculatura do verme
Pamoato de Pirantel11 mg/kg (máx.1g) DUMesmoSeguro na gestação
Infecções mistas: tratar Ascaris PRIMEIRO — risco de migração ectópica para vias biliares, apêndice ou pulmão

Tratamento: Outros Helmintos e Protozoários

Parasita / Agente1ª EscolhaObservação
Trichuris trichiuraMebendazol 100 mg 12/12h × 3dAlbendazol menos eficaz para Trichuris
AncilostomídeosAlbendazol 400 mg DUChecar anemia associada!
Enterobius (Oxiúro)Albendazol 400 mg DURepetir após 2 sem · Tratar TODA a família!
StrongyloidesIvermectina 200 mcg/kg/dia × 2dAtenção em imunossuprimidos — hiperinfecção fatal!
Taenia solium/saginataPraziquantel 5–10 mg/kg DUNOTIFICAÇÃO COMPULSÓRIA (T. solium = risco neurocisticercose)
Giardia lambliaMetronidazol 250mg 8/8h × 5–7d OU Tinidazol 2g DUMetronidazol contraindicado no 1º trimestre
E. histolytica invasivaMetronidazol 500–750mg 8/8h × 10d+ luminal após
Bloco 6
PCCU, Bacterioscopia e ISTs

PCCU: Classificação dos Resultados e Condutas

⚠️ ATUALIZAÇÃO — Agosto de 2025: O MS incorporou o teste molecular de DNA-HPV oncogênico como exame de rastreio primário no SUS. Quando negativo → intervalo de 5 anos. HPV 16 ou 18 detectado → colposcopia direta.
ResultadoConduta
NegativoManter rastreio de rotina
ASC-USRepetir citologia em 6 meses OU colposcopia
AGC (glandulares atípicas)Colposcopia imediata → encaminhar
LSIL / NIC IRepetir PCCU em 6 meses
HSIL / NIC II–IIIColposcopia urgente → ginecologista
CarcinomaEncaminhamento imediato → oncologia

ISTs: Trichomonas e Vaginose Bacteriana

Trichomonas vaginalis
  • IST por protozoário flagelado — corrimento espumoso, odor fétido
  • Metronidazol 2g VO dose única (paciente + parceiro)
  • ⚠️ Contraindicado no 1º trimestre
Vaginose Bacteriana (Gardnerella)
  • Desequilíbrio da flora — NÃO é IST · Clue cells · Nugent 7–10
  • Metronidazol 500 mg 12/12h × 7 dias
  • Gestantes: tratar · Parceiro: NÃO tratar de rotina

Bacterioscopia vs. PCCU

PCCU (Papanicolaou)Bacterioscopia (Gram vaginal)
ObjetivoRastrear câncer cervicalAvaliar flora vaginal e agentes infecciosos
DetectaAlterações celulares, lesõesBactérias, clue cells, fungos, Trichomonas
Quando solicitarRastreio oncológicoCorrimento vaginal, suspeita de vaginose, IST
Na prática: bacterioscopia = exame do corrimento · PCCU = rastreio do câncer. O enfermeiro coleta, interpreta e conduz ambos na AB.
Bloco 7
Sorologias — VDRL com Titulações

Sorologias: Quais Solicitar e Quando

SorologiaIndicação na AB
HIV (Ag/Ac)Pré-natal, IST, populações vulneráveis — teste rápido disponível
VDRL / RPRPré-natal (1º e 3º trimestre), suspeita de sífilis, IST
FTA-Abs / TPHAConfirmatório para sífilis
HBsAg / Anti-HBs / Anti-HBcPré-natal, hepatite B, verificar vacinação
Anti-HCVRastreio >40 anos, drogas IV, transfusões
IgG/IgM ToxoplasmaPré-natal — obrigatório
IgG/IgM RubéolaPré-natal — verificar imunidade
Dengue NS1 + IgM/IgGSuspeita dengue — NS1 nos primeiros 5 dias

VDRL: Qualitativo vs. Quantitativo

1. VDRL Qualitativo

Amostra analisada pura (não diluída). Resultado: Reagente ou Não Reagente. Para toda amostra reagente, o laboratório DEVE fazer o quantitativo (titulação).

2. VDRL Quantitativo — a Titulação

A mesma amostra é diluída em série: 1:2 → 1:4 → 1:8 → 1:16 → 1:32… O resultado é a última diluição onde ainda há reação = o título. Quanto maior o número, mais anticorpo no sangue.

Analogia: Imagine espremer café em água. 1:2 = muito escuro (muito anticorpo). 1:32 = quase transparente. O número mostra a intensidade da resposta imune.

Titulações do VDRL: 1:2 a 1:32+

TítuloComo se lêO que sugere na prática
1:2Diluiu 2× e ainda reagiuTítulo baixo — sífilis tratada, cicatriz sorológica ou janela imunológica precoce
1:4Diluiu 4× e ainda reagiuTítulo baixo a moderado — investigar histórico de tratamento
1:8Diluiu 8× e ainda reagiuTítulo moderado — atividade sorológica relevante, suspeita de infecção ativa
1:16Diluiu 16× e ainda reagiuTítulo alto — sugere infecção ativa sem tratamento adequado
1:32 ou maisDiluiu 32× ou maisTítulo muito alto — fortemente sugestivo de sífilis ativa não tratada
Regra prática: Títulos ≥ 1:8 são fortemente sugestivos de infecção ativa. Títulos baixos (1:2 ou 1:4) exigem contextualização clínica + confirmação com FTA-Abs.
Falso-positivo possível: LES, artrite reumatoide, hepatites, tuberculose, hanseníase, malária, gravidez.

VDRL: Monitoramento do Tratamento pelas Titulações

ParâmetroCritérioSignificado
✅ Queda de 2 diluiçõesEx: 1:32 → 1:8 (em 3–6 meses)Resposta adequada ao tratamento
✅ Negativação do VDRLTítulo indetectávelCura sorológica (pode demorar 1–2 anos)
⚠️ Sem queda de 2 diluiçõesTítulo estável ou subindo após 6 mesesFalha terapêutica ou reinfecção → retratamento
🔴 Alta de 2 diluiçõesEx: 1:4 → 1:16 após tratamentoReinfecção ou recidiva → tratar novamente
Monitoramento (PCDT IST 2022): VDRL com 3, 6, 9 e 12 meses após o tratamento · PVHIV: até 24 meses · Gestante: mensal até o parto
FTA-Abs NÃO é usado para monitorar — permanece positivo para sempre mesmo após cura.

VDRL × FTA-Abs e Condutas do Enfermeiro

VDRLFTA-AbsInterpretaçãoConduta
ReagenteReagenteSífilis ativa ou tratada — verificar títuloSe não tratado ou título subindo: tratar
Não reagenteReagenteCicatriz sorológica — sífilis tratadaConfirmar tratamento completo
ReagenteNão reagenteFalso positivo do VDRLInvestigar LES, autoimune, hepatite, TB, gravidez
Não reagenteNão reagenteAusência de infecçãoRepetir se suspeita forte e exame recente
O enfermeiro prescreve na AB: Notificar no SINAN · Penicilina G benzatina (sífilis recente: 2.400.000 UI DU · sífilis tardia: 2.400.000 UI × 3 semanas) · Tratar parceiro · Solicitar HIV + hepatites · VDRL de controle mensal (gestante) ou trimestral

HIV e Hepatites na AB

HIV — Fluxo de Testagem
  • Teste rápido 1 reagente → Teste rápido 2 → Se ambos reagentes: POSITIVO
  • Encaminhar para SAE ou infectologista
  • CD4 e Carga Viral: solicitados pelo médico especializado
Hepatites B e C
  • HBsAg (+) = infectado / doença ativa
  • Anti-HBs (+) = imune (vacinado ou curado)
  • HBsAg (+) por >6 meses = hepatite B crônica → hepatologia
  • Anti-HCV (+) → confirmar com HCV-RNA → se positivo: hepatite C ativa → hepatologia
Bloco 8
Condutas, Prescrições e Encaminhamentos

Prescrição de Enfermagem e Fluxo de Encaminhamento

Base Legal
  • Lei 7.498/86 — Exercício da Enfermagem
  • Resolução COFEN 195/1997 — Prescrição em programas de saúde pública
  • Resolução COFEN 625/2020 — Atualização de competências
  • Protocolo de Enfermagem na AB (COFEN/CONASS 2016)
O Enfermeiro Pode Prescrever na AB
  • ✅ Sulfato ferroso, ácido fólico
  • ✅ Insulina NPH e Regular (protocolo MS)
  • ✅ Antiparasitários (protocolo)
  • ✅ Antibióticos para ITU não complicada
  • ✅ Penicilina G benzatina (sífilis + protocolo)
  • ✅ Metronidazol (vaginose, tricomonas)

Fluxo de Encaminhamento: Quem vai para onde?

SituaçãoDestino
ITU não complicada em mulher · Vaginose · Sífilis recente (protocolo)✅ Conduzir na AB
Anemia ferropriva leve · Pré-diabetes · Dislipidemia leve (estilo de vida)✅ Conduzir na AB
Hb <10 g/dL · DM descompensado (HbA1c >9%) · LDL ≥160 sem resposta🔵 Médico de Família
PCCU com HSIL / AGC · HIV reagente · Hepatite C ativa🟣 Rede Especializada
DMG confirmada · DM1 · Hipercolesterolemia familiar🟣 Rede Especializada
TG ≥ 500 mg/dL · Plaquetas <50.000 + sangramento · Leucócitos >30.000🔴 UPA — URGÊNCIA
Glicemia capilar <54 mg/dL ou cetoacidose · Carcinoma no PCCU🔴 UPA — URGÊNCIA
Atividade Prática
Casos Clínicos em Grupo
Caso 01

Caso Clínico 1

Gestante, 24 anos, 1ª consulta pré-natal, 10 semanas. Mora com marido e 2 filhos.
Hb / VCM / Ferritina9,8 g/dL · 68 fL · 5 ng/mL
VDRL qualitativo / títuloReagente · 1:4
FTA-AbsReagente
Glicemia de jejum98 mg/dL
Toxoplasmose IgG/IgMAmbos negativos
EASFísico: espumoso · Químico: proteínas 1+, sem nitrito · Microscopia: sem piócitos, sem hemácias
Quais são os problemas? O que o VDRL 1:4 + FTA-Abs reagente indica? Qual o estadiamento e o esquema de penicilina? O EAS com proteínas 1+ preocupa? O que o enfermeiro conduz e o que encaminha?
Caso 02

Caso Clínico 2

Homem, 52 anos, hipertenso em tratamento, diabético há 5 anos, tabagista 20 maços/ano
HbA1c8,4%
Glicemia de jejum178 mg/dL
Colesterol Total / LDL / HDL242 mg/dL · 168 mg/dL · 38 mg/dL
Triglicerídeos248 mg/dL
Creatinina / Microalbuminúria1,3 mg/dL · positiva
EASFísico: espumoso · Químico: proteínas 2+, glicosúria+ · Microscopia: piócitos 3/CGA, sem cilindros
Qual o risco cardiovascular desse paciente? O LDL de 168 está dentro da meta? A HbA1c de 8,4% é aceitável? O que o enfermeiro conduz? O que encaminha? A proteinúria 2+ em diabético preocupa?
Caso 03

Caso Clínico 3

Mulher, 38 anos, assintomática, rastreio de rotina na UBS
PCCUFlora compatível com Gardnerella · células escamosas sem atipias
BacterioscopiaClue cells presentes · Nugent: 8
VDRL qualitativoReagente · Título: 1:2 · FTA-Abs: Reagente
Glicemia de jejum108 mg/dL
Colesterol Total / LDL195 mg/dL · 138 mg/dL
EASNormal nos 3 compartimentos
O VDRL 1:2 + FTA-Abs reagente confirma sífilis ativa? O que fazer? A glicemia de 108 é pré-diabetes — como conduzir? LDL 138 requer estatina? O enfermeiro trata a vaginose?
Caso 04

Caso Clínico 4

Criança, 7 anos, dor abdominal, emagrecimento e prurido anal. Mora sem saneamento básico.
PPF (3 amostras)Ascaris lumbricoides + Giardia lamblia (cistos)
HemogramaHb 10,5 g/dL · Eosinófilos 800/mm³
Glicemia capilar88 mg/dL
EASFísico: límpido · Microscopia: piócitos 3/CGA, sem bactérias, cristais de oxalato
Infecção mista: qual tratar primeiro e por quê? Toda a família trata? O EAS descarta ITU? O que os cristais de oxalato indicam? O enfermeiro prescreve?
Caso 05

Caso Clínico 5

Homem, 55 anos, hipertenso, tabagista há 30 anos — assintomático, check-up de rotina
EASFísico: levemente avermelhado · Químico: hemoglobina+, nitrito negativo · Microscopia: hemácias 30/CGA dismórficas, piócitos 2/CGA, sem cilindros
Colesterol Total / LDL / HDL228 mg/dL · 158 mg/dL · 37 mg/dL
Triglicerídeos165 mg/dL
VDRL qualitativoNão reagente
Hematúria indolor com hemácias dismórficas em tabagista de 55 anos — o que isso levanta? O HDL 37 é um fator de risco independente? Qual o risco CV desse paciente? Para onde encaminha?

Pontos de Ouro para Levar para Casa

  1. O resultado de exame sem clínica não faz diagnóstico
  2. Um único valor de glicemia ≥126 mg/dL sem sintomas não confirma DM — repetir!
  3. HbA1c pode mentir: anemia hemolítica, talassemia e gestação dão resultado falsamente baixo
  4. A meta de LDL não é única — ela depende do risco cardiovascular global do paciente
  5. TG ≥ 500 mg/dL = risco de pancreatite aguda → URGÊNCIA — encaminhar imediatamente
  6. EAS tem 3 compartimentos — leia os três juntos antes de concluir
  7. Piúria sem bacteriúria ≠ ITU — investigar IST, TB urinária ou coleta inadequada
  8. Cilindros hemáticos no EAS = glomerulonefrite aguda → nefrologia com urgência
  9. VDRL qualitativo diz "reagente ou não" · quantitativo diz "quanto" · FTA-Abs confirma
  10. Queda de 2 diluições no VDRL (1:32 → 1:8) = resposta ao tratamento da sífilis
  11. PCCU ≠ exame para corrimento — use a bacterioscopia para isso
  12. Hipotireoidismo é a causa secundária mais comum de dislipidemia — solicitar TSH!

"O enfermeiro que interpreta exames com raciocínio clínico não apenas lê resultados — ele decide o cuidado."

Michelle Juliana Vieira Gomes

Centro Universitário Aparício Carvalho — FIMCA

Semana da Enfermagem 2026

Michelle